Escrito ao longo dos últimos oito anos, o livro é um relato de ficção sobre a vida literária em Curitiba. Não é difícil supor que Geraldo Trentini, o “Vampiro” do título, é inspirado no contista Dalton Trevisan, autor de Violetas e Pavões. Trevisan e Sanches Neto foram amigos durante um período e a relação acabou sem muitas explicações.
Assim como Trevisan, é possível criar paralelos com outras figuras conhecidas do meio cultural curitibano. Sanches Neto comenta essa “leitura direta”, que nada tem a ver com a proposta da narrativa, e responde, por exemplo, por que fez questão de deixar várias pistas que ligam a ficção à realidade fora do livro. Ele fala sobre a desavença com Trevisan e diz que ainda guarda mágoa, "mágoa do leitor devoto, que se dedicou intensamente à leitura de uma obra, fazendo de tudo para compreendê-la – basta ver as dezenas de textos que escrevi, sem poupar adjetivos, sobre ela".
A seguir, confira uma amostra das perguntas que o escritor encarou na extensa entrevista de amanhã. As questões apresentadas aqui, no blog, não aparecem no jornal e vice-versa. Haverá ainda uma resenha, também longa, de Chá das Cinco com o Vampiro. Mas não tão longa quanto a entrevista.
Irinêo Netto
No blog que criou para o lançamento de Chá das Cinco com o Vampiro, a maioria dos posts menciona Dalton Trevisan (8 de 12 até o meio-dia da segunda-feira passada) e alguns sugerem que o livro que você lança agora pode pôr fim a uma questão pessoal – como aquele em que comenta o quanto sua reação ao poema “Hiena Papuda” foi terrível. Não é difícil enxergar em “Hiena Papuda” um ato de vingança de Trevisan. O mesmo vale para Chá das Cinco com o Vampiro. A situação toda é singular demais para ser ignorada: o vampiro é, enfim, vampirizado. Você consegue antever alguma consequência da publicação do livro? Teme as reações das pessoas que talvez se sintam retratadas em algum personagem?
Miguel Sanches Neto – Não existe ação que não produza reação. Eu próprio, como você bem observou, funciono melhor reativamente. O que não quer dizer que eu vá responder a tudo que for escrito contra mim. Qualquer um tem o direito de escrever o que bem quiser. Não posso achar que só eu tenho direito de me manifestar livremente – não suporto este tipo de hipocrisia, de quem faz piada com todo mundo e não aceita que brinquem com ele. O importante é que, do ponto de vista das intenções dos textos, não existe nenhum projeto de julgar pessoas, e sim de mostrar um personagem – o narrador – que desfia a vida como um rosário de decepções.
A publicação de Chá das Cinco... marca uma mudança de editora ou você segue na Record e negociou apenas um livro com a Objetiva?
Sou um escritor profícuo – segundo me acusam por aí – e tenho a necessidade de contar com mais de uma casa editorial. Assim, publico também pela Bertrand do Brasil, pela Leitura, pela Global e agora pela Objetiva. Minha ideia é continuar na Record e ampliar os títulos na Objetiva, mas não há nada certo ainda.
Sobre o romance, como você chegou a esse formato em que a narrativa salta no tempo, indo e vindo de Peabiru?
Cada livro exige uma estrutura. Não dá para repetir sempre a mesma forma de narrar. Tento buscar um novo formato a cada romance, e este precisava de uma estrutura dupla, pois coloca em oposição o mundo interiorano e o da grande cidade, o jovem rebelde e o mestre arraigado na força de sua notoriedade, o passado e o presente. Ao construir o romance alternando tempos e espaços, eu acredito ter dado mais agilidade à narrativa, permitindo alguns choques. Ao passar de um capítulo para outro, o leitor sente a sensação brusca de sair de um lugar aquecido para o vento frio de inverno. O livro vai montando um quebra-cabeça narrativo. Fiz plantas-baixas para este livro, com cada cena bem definida.
(Leia mais sobre Chá das Cinco com o Vampiro amanhã (18) na Gazeta do Povo.)