quarta-feira, 21 de abril de 2010

CIDADES IGUAIS

— Essa gentinha “sacana” faz de tudo para te destruir. São caçadores de peru. Sabe como se caça peru? Atirando naquele que levanta a cabeça. Aqui só sobrevive quem não se sobressai. Por isso é uma cidade tipicamente classe média.
— Por ter nascido aqui, você quer que Blumenau seja mãe. Eu sempre aceitei que ela fosse madrasta.
— Perdi a paciência. Escreva um “grande” livro, tenha uma grande ideia, descubra uma nova constelação… qualquer coisa importante que você fizer será um passaporte para a obscuridade. É assim que essa “droga” de elite continua comandando tudo. Somos tão forasteiros quanto você, não importa muito ter nascido aqui, nem nossos pais terem lutado para o progresso da cidade, se você não tem um sobrenome, será sempre estrangeiro.
— Mas os forasteiros chegaram ao poder, como deputados, prefeitos…
— Quem continua comandando a cidade? Veja os sobrenomes. “Caramba”, tudo na mão deles, uma elite que não produziu nada de importante, apenas administrou riquezas, controlando posições de mando.
— Talvez você tenha razão.
— Claro que tenho. Veja que “porcaria” que é a cidade, totalmente sem acústica. Estamos “ferrados”, sempre falaremos sozinhos.
— Mão de obra que não deve ser bem remunerada.
— É assim mesmo que eles nos veem. Agora tire a contribuição do pessoal do interior, dos que vieram de outros estados, o que sobra de Blumenau? (…) Tudo aqui é importado. Falsamente europeia. Uma cidade que copia estilos, dirigida por imitadores.
***
O texto acima não é meu. Raptei-o das páginas 145 e 146 do novo romance de Miguel Sanches Neto, Chá das Cinco com o Vampiro, sobre o qual dissertei dias atrás. Apenas tomei o cuidado de trocar Curitiba por Blumenau e substituir os palavrões pelas palavras mais amenas que aparecem entre aspas. Transcrevi o diálogo por ter me lembrado de uma conversa muito semelhante que tive com um blumenauense desapontado. Sinal de que todas as cidades são iguais? Talvez, mas minha motivação vai um pouco além. Fiz questão de demonstrar que esse “rancor” e esse descontentamento com a dinâmica da cidade não vêm apenas de forasteiros como eu. Vêm também dos nativos que se preocupam com o destino de Blumenau.

(Crônica publicada em 30 de março de 2010, no Santa).