Marcos Losnak (Folha de Londrina, 17 de abril de 2010)
A vaidade é uma espécie de fungo que passeia por todos os lugares. Com tamanhos variados e formas improváveis, reveste tudo que tenha algum dedinho humano. A arte, nesse território, é uma verdadeira passarela. E a literatura, uma vasta caravana. Em seu novo romance, 'Chá das Cinco com o Vampiro', o escritor paranaense Miguel Sanches Neto retira a vaidade literária das gavetas e a coloca no meio da rua, sob o sol e sob a chuva. Expõe, sem lengalengas, as mazelas que habitam, de maneira oculta ou dissimulada, o circulo literário de Curitiba. Um assunto que pode ser considerado polêmico, mas não fantasioso.
'Chá das Cinco com o Vampiro' narra a história de Beto, um jovem apaixonado pela literatura que deixa uma pequena cidade do interior do Paraná para se fixar em Curitiba. Na capital, torna-se crítico literário de um jornal de grande circulação. Em pouco tempo começa a frequentar o círculo literário da cidade, travando contato com seus escritores famosos e seus aspirantes mais atuantes.
Com o tempo, Beto percebe que o universo literário da capital, apesar de toda pompa, se revela um quintal repleto de vaidades, conchavos, manipulações, jogos de poder, inveja, interesses particulares, alucinações, mesquinhez e megalomanias. Um lugar onde nenhum estrangeiro precisa se empenhar em travar a literatura do lugar porque os próprios escritores da cidade se encarregam de tal tarefa.
Da mesma maneira, Curitiba, a grande capital moderna, se revela uma província típica. Uma província de grandes avenidas e detentora de um inexplicável processo autofágico. Todas as expectativas idealistas de Beto, sejam no campo das letras ou no campo civilizatório, escorrem ralo abaixo quando se defrontam com o real. Não com as aparências ou maquiagens, mas com as coisas como realmente são.
A narrativa de 'Chá das Cinco com o Vampiro' oferece duas possibilidades de leitura. A primeira seria aquela realizada pelo leitor comum que percorre as páginas do romance despreocupado com as referências literárias oferecidas pelo autor. Uma leitura que encare a obra como puramente ficcional, como se propõe a obra enquanto gênero. A história de um jovem que se envolve com a literatura e acaba descobrindo as mazelas e agruras que repousam no ventre do monstro. Um jovem que, apaixonado pelas letras, é abatido por uma profunda desilusão pela arte a partir do momento em que conhece os homens que fazem literatura. Homens incompatíveis, no campo humanístico, com a arte que produzem.
A segunda seria aquela realizada pelo leitor que possui referências do universo literário curitibano das últimas décadas. Isso porque é possível identificar, no leque de personagens desenhados por Sanches Neto, alusões diretas às figuras reais, mortas ou vivas, que povoam fauna de escritores de Curitiba. Para esse leitor, dentro dos elementos ficcionais, é possível encontrar um particular retrato do universo literário da cidade. O eterno e repetitivo mito Dalton Trevisan é o mais escancarado através do personagem quase senil chamado Geraldo.
Mesmo carregado de elementos ficcionais, é impossível não reconhecer na obra elementos autobiográficos do autor. Filho de agricultores, Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso em 1965. Ainda pequeno, mudou-se com a família para Peabiru, onde passou a infância. Vivendo em Curitiba, atuou como crítico literário do jornal Gazeta do Povo por mais de uma década. Estreou na literatura em 2000 com o romance 'Chove em Minha Infância'. Na sequencia, publicou 'Hóspede Secreto', 'Um Amor Anarquista' e 'A Primeira Mulher', entre outros. Atualmente reside em Ponta Grossa onde atua como professor universitário.
Apesar de todo tipo de polêmica que 'Chá das Cinco com o Vampiro' pode gerar nos círculos literários curitibanos, o romance é uma simples e clássica história de busca e desilusão. Assim como o lendário escritor paulista Raduan Nassar, de maneira simbólica, abandonou a literatura para criar galinhas, o personagem principal de 'Chá das Cinco com o Vampiro' abandona os círculos literários para plantar soja. Duas desilusões emblemáticas. De um lado a desilusão para com a própria literatura, de outro a desilusão com aqueles que fazem a literatura.