quarta-feira, 14 de abril de 2010

UM TIRO NO SALÃO DE CHÁ DA LITERATURA

Texto de Antonio Cescatto

A pergunta que emerge, faiscante, depois da leitura de um livro como Chá das Cinco com o Vampiro, de Miguel Sanches Neto, é uma só: teria o autor o direito de perpetrar um retrato tão cruel quanto cínico de sua relação com o Le Monde literário da Curitiba dos anos 90 a 2000? Seria justo que ele viesse a público para destilar sentimentos genuínos mas ambíguos, como o ressentimento, a raiva, ou mesmo uma admiração fria e um desprezo crescente por todos que o rodeiam, admiração e desprezo que levam-no a ignorar o desejo evidente de cada um dos retratados em permanecer onde sempre estiveram, isto é, protegidos pela persona do recluso ou do resignado, ocultos pelo personagem público que criaram, em uma cidade que justifica todos os medos e fracassos como atitude estética contra a “crueldade” polaca que lhe é inerente?
Nossa primeira resposta seria simples: não, não é justo que as pessoas sejam expostas assim, dessa forma, sem prévia consulta ou consentimento, principalmente se considerarmos que muitas delas já nem estão entre nós. Movidos, então, por um sentimento de nobreza interior, que nos distingue e eleva ao Olimpo rousseauniano da sabedoria, invocaríamos imediatamente a justificativa mais facilmente disponível: trata-se de um oportunismo, sim, um oportunismo da pior espécie: Miguel quis valer-se da fama dos retratados – o Vampiro, naturalmente, como principal deles – para catapultar-se além dos seus talentos literários, buscando compartilhar a glória de alçar-se às alturas do Príncipe do Conto Breve, desfrutando – nem que seja pela curta temporada de um chá das cinco – da mais inexpugnável versão de JD Salinger que a literatura brasileira foi capaz de produzir.
Ora, quem ele pensa que é? Tivesse a sensatez de permanecer em sua alcova de personagens ficcionais, diluído em fantasmas dos quais guardaríamos os nomes mas não reconheceríamos os rostos, e tudo estaria certo. Um escritor, afinal, tem o direito de criar os personagens que quiser, dar-lhes o nome que – ele ache – devam merecer, e apagar-se entre eles, não deixando o menor rastro de passagem de uma pessoa concreta pelo caminho, mesmo que saibamos, lembrando Flaubert, que “Madame Bovary c’est moi !”. Qual o quê. Do seu exílio em Ponta Grossa, Miguel Sanches Neto remexe nos fantasmas que se encontravam adormecidos no quarto da memória e, sem medo de despertá-los, toma a suprema ousadia de nomear o que nunca deve ser nomeado, de revelar o que nunca deve ser revelado, de trafegar pela contramão da sensatez, da maturidade e cometer um ato que só pode ser classificado dessa forma: uma insensatez em forma de livro.
Abrigado sob o nome de um certo Beto, ele revela seus encontros e desencontros com a fina flor da intelectualidade nativa, ele, um garoto de trinta e poucos anos, recém-chegado de Peabiru, a circular entre perplexo e fascinado por entre a geração que chega aos 50, 60 e 70 anos (caso específico do Vampiro) no final dos anos 90 e início do novo milênio. Sim, havia um pai alcoólatra, perverso e impiedoso a contaminar os relacionamentos do filho com qualquer um dos seus novos parceiros de jornada; mas não nos iludamos: uma explicação psicológica não é capaz de definir ou mesmo dar conta dos mecanismos tortuosos pelas quais uma personalidade literária se expressa. A literatura e a criação artística superam, de longe, a psicologia. A mente humana – diria Gertrude Stein – anda aos saltos, enquanto a natureza humana – fundamento da psicologia – busca a semelhança, a identidade.
E talvez esta seja a única resposta para o enigma a que o livro nos atira e que ele nos propõe: não é a identidade que importa. Gostamos de dividir o mundo entre a sociedade do espetáculo, onde vivem e expõem-se as chamadas celebridades, o mundo do Big Brother e de suas caretices dissimuladas em ousadia, com a sociedade secreta dos artistas talentosos, ou dos profissionais sérios, ou dos intelectuais religiosamente regrados, as quais só podem ser freqüentadas por alguns poucos e escolhidos iniciados. Quando um renegado despreende-se e atira contra o próprio forte, o que vemos desmanchar-se é uma imagem cuidadosamente estruturada para refletir o que havia sido definido para ela. O Vampiro, então, que nos parecia tão refratário às vicissitudes humanas, de repente nos aparece como refém da mais comezinha entre elas, a vaidade. As reticências anticuritibanas do escritor Turco surgem como o que elas sempre foram: uma forma neurótica de lidar com a própria impotência. E alguém, finalmente, tem a coragem de dizer que aquelas genialidades semióticas de Valério Chávez talvez não fossem mais do que uma necessidade acadêmica de contrapor a literatura verdadeira com seu anátema.
Nesse rodamoinho em que o livro nos coloca, uma galeria de personagens conhecidos ressurge das sombras, contraditórios, repugnantes, interessantes, desprezíveis, mas sempre, e acima de tudo, vivos. Pois se um universo desmorona quando os alicerces dos mitos são abalados, quando as entranhas das relações literárias são expostas, mesmo que sob o epíteto da inveja e do rancor, o fato é que, quando existe o talento literário, e esse talento é capaz de nos conduzir por quase 300 páginas de idas e vindas, então tudo vale a pena. Talvez o Orlando Capote que conheçamos não seja exatamente aquele que Beto conheceu, talvez Leminski não possa ser reduzido a um fenômeno juvenil apenas, como Beto indica, mas uma coisa é certa: Curitiba, esse monstro que nos amedronta e paralisa foi enfrentado – talvez pela primeira vez – com verdadeira coragem. Mais do que uma blasfêmia, Chá com o Vampiro é uma ode à literatura e aos escritores da cidade, essa raça que insiste em não se reconhecer e em se apedrejar às escuras, negando-se ao negar sua mais paradoxal humanidade.
Geraldo Trentini não deixará de ser o grande escritor que é por esse livro. Akel continuará sendo o escritor cult que ele sempre planejou ser, promessa eterna a ser descoberta, figura apaixonante. Orlando Capote não deixará de cultivar os amigos (e os inimigos), amar a política (mesmo que odiando-a) e a escrever livros. Quanto a Valério Chávez – quem sabe que destino o futuro lhe reservará? Mas, de um jeito ou de outro, todos tornar-se-ão, depois deste tratado dos pequenos vícios e das grandes virtudes, mais humanos, mais viáveis, mais falíveis. E se essa não é a função da literatura na vida, francamente não sei qual é.