Por Rosiellen Thaís Laurindo e Natalie Rosa
O livro “Chá das cinco com o vampiro”, de autoria do escritor Miguel Sanches Neto, mostra a cara da literatura curitibana. Talvez, por esse motivo, seja mais bem apreciado como ficção por quem está fora da cidade. Somente assim será possível realizar uma leitura branca e branda a cada página, longe de qualquer pré-conceito já estabelecido ou conceito vivido. Não se trata de uma simples ficção, mas de um roman à clef, uma forma narrativa em que o autor trata de pessoas e histórias reais por meio de personagens com nomes fictícios. Contudo, o mais espetaculoso da obra está não na escolha da narrativa, mas no peso dos nomes escolhidos a serem trabalhados por ela.
No livro, a história contada e vivida pelo personagem Beto Nunes é, na verdade, a história do próprio autor, Sanches Neto. Mas ele não reservou para si o papel principal. O protagonista do livro é Geraldo Trentini, na vida real, o escritor Dalton Trevisan – um dos mais renomados contistas brasileiros. Hoje com 84 anos, Trevisan escreveu a obra “O vampiro de Curitiba”, fator explicativo ao título e que demonstra a falta de preocupação de Sanches em preservar as identidades reais de seus personagens. O autor optou intencionalmente por nomeá-los de forma a seguir lógicas que remetessem ao verdadeiro nome correspondente a cada personagem, o que não seria de tanto necessário, pois as características citadas acerca de cada um já explicitariam em demasia suas identidades.
Assim como Sanches, o protagonista Beto, muda-se da pequena cidade de Peabiru para Curitiba com o objetivo de alcançar a carreira literária profissional. Dentre esse desígnio, porém, havia outro alvo a ser alcançado: relacionar-se ativamente com seu ídolo, Geraldo Trentini (Dalton Trevisan). Para tal, frequenta lugares comuns ao do escritor, como a extinta padaria Schaf-fer. Tal finalidade é alcançada, e Beto se torna um aprendiz de Trentini. Assim, cultivam uma longa história de amizade, além da questão profissional envolvendo os ensinamentos literários. Por sete anos foram mestre e discípulo, grandes amigos. Características pessoais e detalhes do cotidiano do protagonista nesses anos são citadas na obra, o que veio a despertar ainda mais a ira do homenageado.
Tal relação, no plano real, foi rompida em 2004, quando, supostamente, o autor apresentou seus manuscritos para um outro amigo. Rapidamente os textos chegaram às mãos de Trevisan, que já havia acusado Beto de revelar detalhes de sua vida pessoal a um repórter. Daí para frente a história só piorou e a amizade entre mestre e discípulo se transformou em guerra. Nesse conflito as armas usadas foram as palavras, afiadíssimas, como as de Trevisan no poema “Hiena Papuda”, direcionado a Sanches. Por conta de tanta polêmica, o livro não fora publicado na época, mas agora, seis anos após o início da confusão, a Editora Objetiva, nos brinda com essa magnífica obra.
O livro também relata acontecimentos envolvendo mais personagens, também reais, como, provavelmente, o jornalista político Fabio Campana, retratado como Orlando Capote. E há outros, cujos quais, Sanches nunca teve uma relação muito agradável. Uma boa forma de vingança!
Em tempos de tantos reality shows, onde as pessoas têm suas personalidades e intimidades tão escancaradas, expostas, esse jogo de adivinhação promovido por Sanches, se torna uma delícia, no mínimo, instigante. As folhas do livro tendem a facilmente serem rasgadas, pela voracidade com a qual a ânsia por novas informações, descobertas, nos faz virar as páginas. Mais que uma boa história, é uma boa história real; mais que uma biografia, seria uma obra não autorizada com uma riqueza de detalhes impressionantes; mais que uma curiosidade acerca da vida do misterioso vampiro de Curitiba, queremos saber o que tanto Trevisan quis nos esconder.