Carlos de Sousa, Toque – livros e cultura. Natal: Tribuna do Norte, 13 de outubro de 2010.
Outro dia estava vendo um programa de entrevistas na Globonews. Era Edney Silvestre (que ganhou junto com Raimundo Carrero o Prêmio São Paulo de Literatura) entrevistando o escritor curitibano Miguel Sanches Neto. Comentei com meu amigo João da Rua sobre o livro e ele disse que deveria ser interessante. Dias depois dei um livro de Dalton Trevisan para João e não demorou muito ele chegar lá em casa com um exemplar do livro de Sanches Neto. Pois bem, o livro que vou comentar hoje é Chá das Cinco com o Vampiro, de Miguel Sanches Neto, Objetiva, 236 páginas, R$39,90.
Li o livro de uma visada só. Começo da noite até as primeiras luzes da manhã. É um romance de ficção? Não. Parece mais uma biografia romanceada e não autorizada de Dalton Trevisan, só que com os nomes trocados. De quebra, o autor ainda faz retratos cruéis de amigos, ex-amigos e até de desconhecidos. Nisso o livro é muito bom. Você lê o tempo inteiro esperando a hora de pegar um filãozinho qualquer de fofofoca. Tem o escritor medíocre que se acha Cult e o melhor do Brasil; tem o publicitário que não consegue escrever seu grande livro; tem a coroa artista plástica que não suporta a chegada da velhice; tem o poeta chato que quer mostrar seus originais para o jornalista; e por aí vai. Sanches Neto é muito bom na descrição de seres humanos que ele conhece.
Porém, o principal personagem do livro, apesar de ser narrado na primeira pessoa, é mesmo o contista Dalton Trevisan. Como todo mundo que leu um pouco sabe, ele vive recluso em Curitiba, e foi também por muito tempo um mestre do conto no Brasil. Eu o conheço atavés de sua obra-prima O Vampiro de Curitiba. Mas, com o passar do tempo ele ficou chato e repetititvo. Os contos ficaram minúsculos, às vezes, muito ruins. Você percebe uma certa preguiça no seu fazer literário. Isso é dito com todas as letras por Sanches Neto, e aí está o grande mérito de seu livro, que ele disse ter relutado muito para publicar, mas eu não acredito. O material que ele tinha em mãos era sua única porta de entrada para o mundo dos eleitos na literatura brasileira. Não que ele faça boa literatura. Seu estilo apressado pede um melhor burilamento das frases. Os trechos em que o narrador fala de si mesmo, só alcançam as alturas quando ele fala da Tia Ester, grande personagem do livro.
Mas é sempre interessante ver um escritor falando de seu mundinho, o mundinho literário em que rastejam esses vermes que encontramos em todas as capitais. Tudo é muito parecido, tanto em Curitiba quanto em Natal. É a mesma fuleragem em torno das vaidades, e o grande Dalton Trevisan não foge disso. Acho que nem os grandes como Proust, Joyce e Balzac não fugiram dessa merda toda. É sempre a mesma história. A diferença é que as futricas deles lá em Curitiba acabam saindo na grande imprensa, talvez pela proximidade, enquanto aqui nós vivemos no completo desconhecimento. Curitiba tem dois grandes nomes como Dalton Tevisan e Paulo Leminski e mais uma penca de gente boa, tanto na ficção como na crítica.
Sanches Neto tem umas sacadas legais ao observar a fauna humana local. Ele diz que os livros produzidos por aqueles poetas que ficam reunidos na Casa do Poeta, no centro da cidade, são como os cavalinhos de artesanato. Não servem nem para decoração. É com um desses poetas que ele narra uma cena de pugilato. Tudo bem, mas ao narrar suas agruras de rapaz incompreendido, esnobado pelo mestre, Sanches Neto acaba se colocando numa situação meio incômoda, como se o narrador fosse o dono da verdade e estivesse acima de tudo. Que nada, ele também tem suas falhas.
Percebi também suas fortes influências vindas da literatura americana, desde J. D. Salinger até Philip Roth, ambos citados no livro. Isso pode ter sido um diferencial para que ele enfim criasse sua própria voz, ganhando distância da proverbial concisão da literatura curitibana. Uma coisa é certa, não é um livro chato. É muito simples e gostoso de ler e, digo mais uma vez, delicioso quando faz fofoca com a vida dos outros. Porque nós, seres humanos, temos essa característica de nos deliciarmos com a dismitificação alheia. Somos todos iguais, vejam bem, pensamos intimamente. Só porque determinado sujeito tem um talento para escrever coisas melhores que nós, não vamos deixar que ele se ache mais importante, grita nosso ego. Sanches Neto abriu uma porta para essa atitude humana. O resultado foi semelhante ao que aconteceu com Truman Capote (que é homenageado no livro dando nome a um personagem). Sanches Neto caiu em desgraça com várias pessoas que se reconheceram em seus personagens. O mais irritado de todos foi o próprio Dalton Trevisan, que chamou o autor de “hiena papuda”. Isso de cara já coloca o grande contista no nível de qualquer mortal. Triste daquele que não sabe rir de si mesmo. No final, mesmo talvez sem perceber, Sanches Neto faz uma citação a Coetzee e seu personagem Michael K. Deixa de escrever críticas em jornais para parar de arranjar inimigos e procura o refúgio da natureza. Fico pensando que, até certo ponto, ele tem razão. Se eu fosse exercer aqui a crítica com os rigores da crítica que é feita nas universidades, eu não poderia andar em paz pelas ruas de Natal. Por isso, faço resenhas apenas para incentivar a leitura de livros. Apenas isso.