sábado, 23 de outubro de 2010

DOIS ESCRITORES CHAMADOS MIGUEL SANCHES NETO

Daniel Couto, Revista UP n. 25, 04 de outubro de 2010.

Em uma pequena cidade, longe do burburinho da classe literária, um escritor vem grafando seu nome na história da literatura, com seus livros que revolucionaram a fronteira entre ficção e realidade

Miguel Sanches Neto, 45, é um escritor dedicado a escravizar seus leitores. Munido de uma imaginação farta, sensível e erótica, a cada obra ele dá provas de que seu nome não é transitório, mas, sim, o de um escritor que vai deixando sua marca, para colocar seus livros no patamar onde estão nomes como Hemingway, Borges e Graciliano Ramos. Depois de você ler uma de suas obras, é bem provável que irá querer ler outro e mais outro, e desta forma se tornar um leitor-prisioneiro, viciado em seus escritos. Mas será uma prisão privilegiada, afinal, trata-se de um autor que já foi comparado a Lima Barreto, Raul Pompéia, Truman Capote e Cormac McCarthy. Para entender sua importância, pescamos três momentos de sua trajetória, que serão contados em uma sequência não-linear, um de seus recursos como escritor.

2010. É HORA DO CHÁ

Nos últimos meses, você pode ter passado por uma livraria e visto o livro Chá das Cinco com o Vampiro (Editora Objetiva, 2010) na prateleira dos lançamentos, achando que se tratava de um título sobre fantasias vampirescas, lobisomens ou outros elementos fantásticos da literatura juvenil. Mas, nada disso. O livro foi um dos maiores alvoroços literários dos últimos anos no Brasil. De tão polêmico, embaralhou a vista da classe crítica brasileira, que cobriu massivamente o lado que supostamente inspirou a história e deixou de canto sua proposta ficcional.
O motivo de todo este alvoroço remonta à década de 1990, quando, por sete anos, os escritores Miguel Sanches Neto e Dalton Trevisan foram pupilo e mestre. Dalton Trevisan é famoso por seus contos ambientados em Curitiba e por sua reclusão que já soma 40 anos. Por achar que Sanches Neto havia dado informações pessoais suas a um repórter, o mentor reagiu ferozmente contra o pupilo, disparando acusações e ofensas. Desiludido, Sanches escreve no calor do momento, mesmo sem interesse de publicar, o romance Chá das Cinco com o Vampiro, um retrato do meio literário curitibano mesquinho e vaidoso, em um estilo já usado, por exemplo, por Truman Capote, em Súplicas Atendidas, que se vale de nomes parecidos e referências próximas às pessoas reais para inspirar uma ficção com trejeitos de história verídica. Tal recurso chama-se de roman à clef, um gênero que já fazia sucesso na França do século XVII, quando se incluíam em narrativas ficcionais pessoas conhecidas da corte de Luis XIV.
Porém, uma cópia do original acabou caindo nas mãos de Trevisan, que mais uma vez se revolta contra Sanches, agora publicamente, através do poema "Hiena Papuda". Passaram-se dez anos e Sanches, cansado dos ataques, decidiu publicá-lo, elevando os brios do meio literário e jornalístico nacional.
A cobertura sobre o livro mais pareceu um debate sobre as fronteiras entre o ficcional e o real do que uma cobertura crítica sobre o romance em si. Mas, quando olhado por lentes literárias, as críticas são extremamente favoráveis. Sanches Neto busca certa precisão que figura em obras como a de Ruben Fonseca e Dalton Trevisan, no Brasil; e Cormac McCarthy, nos EUA, aponta Dellano Rios em reportagem no caderno 3 do Diário do Nordeste. Eustáquio Gomes, do Jornal do Brasil, tentando posicionar a obra, escreve: "Recordações do Escrivão Isaías Caminha, romance de estreia de Lima Barreto, encontra em Chá das Cinco com o Vampiro o seu equivalente temático e qualitativo".
O livro ainda tem uma característica-chave presente também em outros romances do escritor, fundamental para compreender sua obra, que é a volta do personagem ao local de onde partiu no começo da história. Sanches explica que se trata de um retorno às origens. "Mas não é um retorno tranquilo, ele é tumultuado, cheio de frustrações, mas revela um desejo de recomeçar. Todos os meus personagens desejam recomeçar. Viver é sempre recomeçar, não é?", completa o escritor.
Mas, apesar de ter atraído tantos holofotes, ainda é cedo para definir a importância de Chá das Cinco com o Vampiro. "Foi um livro que rendeu notícias. Espero que renda também compreensão", avalia Miguel.

2000 - A ORIGEM
Sanches começou a vida literária cedo. Escreve desde os 13 anos e sempre buscou uma ligação com a literatura. Nasceu em 1965 em uma pequena cidade no norte do Paraná e passou a infância em Peabiru, cidade que serve de cenário em muitos de seus romances e contos. Começou, na verdade, pela poesia, "esta amante arisca - dessas para quem você dá de tudo e recebe muito pouco", como gosta de definir. Depois de se formar em Letras na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari (FAFIMAN), começou a publicar seus textos no, hoje extinto, mas bastante prestigiado na época, jornal Nicolau e em outros jornais (textos que estão reunidos no volume Primeiros Contos, Arte e Letras, 2008). "Eu mandava para os editores de caderno de cultura para os quais eu fazia resenhas. Na publicação antes do formato livro, você vai testando a recepção de seus textos, vai vendo o que funciona. Ler um texto da gente publicado nos dá um olhar de fora, e isso ajuda a revelar erros e acertos", observa o escritor.
A trajetória de Miguel tem muita relação com as temáticas de suas obras, devido ao seu estilo confessional de escrever. "Toda grande literatura é autobiográfica", apontou certa vez, em uma entrevista anterior à publicação de seu primeiro romance, Chove sobre minha Infância (Record, 2000). O livro traz à tona memórias e experiências em sua cidade natal e foi responsável por revelar o autor em nível nacional. Não apenas isso. Chove Sobre a Minha Infância é também o livro para ser lembrado na história da literatura.
No jornal O Globo, o crítico literário Wilson Martins comparou a obra com O Ateneu, de Raul Pompéia e garantiu: "É um dos grandes escritores brasileiros de nosso tempo num dos grandes momentos de nossa literatura". Miguel explica a importância que foi dada à obra: "É um livro que leva o discurso autobiográfico a uma fronteira que a literatura brasileira não conhecia ainda. É um livro perverso, porque joga com memória e ficção sem deixar pistas para o leitor. Tudo pode ser lido como ficção. E não é. Tudo pode ser lido como autobiografia e também não é. Depois deste livro, muitos escritores brasileiros passaram a escrever de forma mais à vontade sobre a própria vida".
Essa compreensão clara de sua posição na literatura se deve também a outra faceta de Miguel, a de crítico literário e professor de Literatura. Miguel é doutor em Teoria Literária pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e hoje também é considerado um dos expoentes da crítica nacional. Desta forma, são duas pessoas que trabalham no livro. O Miguel escritor ("quem escreve é o homem que sou") e o Miguel crítico e professor: "É o crítico e professor treinado a ver as coisas que vai fazendo podas, enxertando passagens. Quem escreve é um. Quem revisa é outro. Somos dois autores assinando os meus livros".

2005. O MELHOR AUTOR DE SUA GERAÇÃO
Depois do lançamento de Chove sobre Minha Infância, a literatura de Sanches foi acompanhada de perto pela imprensa nacional e seu nome cresceu até ser considerado pela revista Veja como "o melhor autor de sua geração". Tal indicação ecoou nas alturas e chamou a atenção para seu próximo romance, Um Amor Anarquista, ambientado em uma colônia chamada Cecília, fundada em 1890 em Palmeira, no interior do Paraná, onde os pilares anárquicos amor-livre, propriedade coletiva e liberdade individual serviram de pano de fundo para um romance de beleza e peso.
Sanches pesquisou o tema por uma década e visitou diversas vezes o local para sentir na pele a história que queria contar. Um Amor Anarquista se tornou até hoje seu livro de maior vendagem e de grande repercussão na imprensa, projetando Sanches como escritor de renome nacional, além de ter tido ótimas respostas estrangeiras. Foi traduzido para o espanhol e teve aceitação na Itália e na França, sendo comparado com os livros de Truman Capote, além de ter sido tema de seminário na Universidade de Lyon (França).
A tal geração em que Sanches se destacou é a chamada 'geração dos anos 90'. "Pertenço a uma literatura que busca uma conexão maior com os leitores", comenta sobre sua época, mas sem se ligar a nenhum grupo. A crítica sempre busca identificar o escritor a uma determinada linhagem e a literatura está marcada muitas vezes por grupos ligados por afinidades estilísticas, ideológicas, políticas ou regionais, a exemplo da geração Perdida ou geração Beatnik. Mas, Sanches vai na contramão deste padrão de comportamento, mantendo-se sem uma identidade grupal.
Assim, vivendo longe do burburinho que movimenta a classe literária em cidades grandes, Miguel, de uma cidade do interior do Paraná chamada Ponta Grossa, escreve de forma prolífica, se ligando, como diz, a "escritores para quem a literatura é uma experiência humana intensa posta em uma linguagem cativante". Portanto, não a uma panela de artistas da época atual, mas a um grupo de escritores que marcaram seus nomes na história da literatura. E, pelo que parece, não quer ser apenas o melhor de sua geração. "Gostaria de escrever um romance que permitisse que o leitor olhasse o mundo com os olhos de primeira vez", conclui.

Livros
Miguel Sanches Neto já publicou mais de 20 livros, entre romances, contos, crônicas, poesia e literatura infanto-juvenis. E diversos outros como organizador de antologias. Veja aqui uma seleção de sete de suas obras principais

Chá das Cinco Com o Vampiro (Romance, Objetiva, 2010) - Romance de formação que relata a trajetória de um escritor que sai de uma cidade pequena e consegue penetrar na vida literária da capital.
A Primeira Mulher (Romance, Record, 2008) - Um romance semi-policial em que o personagem principal se envolve em uma grande trama quando uma ex-namorada, candidata à prefeitura, pede sua ajuda.
Um Amor Anarquista (Romance, Record, 2005) - Romance Histórico passado na Colônia Cecília, onde o amor livre e as ideias socialistas são postas em prática.
Hóspede Secreto (Contos, Record, 2003) - Livro que conquistou o 1º Lugar do Prêmio Cruz e Sousa (2002), um dos mais importantes da literatura brasileira. Os personagens, naturais de Peabiru oferecem 13 belas histórias de lembranças e confrontos na vida.
Herdando uma Biblioteca (Crônicas, Record, 2004) - Aqui o autor revela como desenvolveu o amor pelos livros e traz verdadeiras pepitas para quem está começando a tomar gosto pela literatura.
Venho de Um País Obscuro (Poesia, Bertrand Brasil, 2005) - Das memórias da infância e adolescência, o autor busca inspiração poética para lembrar da vida no interior

Próximo livro - O próximo trabalho de Sanches já está em fase de produção. É a coletânea de contos Então você quer ser Escritor?, da editora Record, previsto para o começo de 2011. Já em poesia, área que não publica desde 2005, Miguel comenta que talvez publique daqui uns cinco anos. "Não devemos publicar mais do que um livro de poemas por década", defende.