
Prezado Miguel,
O que achei do livro [Chá das cinco com o vampiro]: excelente!
O livro trata todos os personagens (não conheci nenhum dos inspiradores na vida real) com tanta delicadeza, que, arrisco: só mesmo um certo ressentimento pelo seu sucesso pode explicar algumas críticas. Parabéns!
O que o livro significou pra mim? Sempre fui de poucas leituras - do que me arrependo. No pouco que li, sempre senti falta de uma identificação mais profunda com as obras, aquela coisa de sentir-se fisicamente parte da história, estar no mesmo lugar, no mesmo tempo. Já tinha sentido esse sabor diferente quando li Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini. Ali, senti o saborzinho, na literatura, de ver coisas que eu havia presenciado no mesmo espaço da (minha) vida real (já meio distante, é verdade; digamos que cheguei às histórias daquele livro no último ato).
Quando ouvi falar que era paranaense, comprei o Chá das Cinco pra presentear uma amiga. Como é muito pudica, decidi empreender uma olhadela prévia. Que surpresa boa! Fui aos poucos tomado por cenas que, acredito, embora universais, me eram bem mais próximas do que tantas outras. Entendi (posso estar equivocado, não sei) que ler Érico, sendo gaúcho, ou aqueles mineiros todos, sendo mineiro, tem outro sabor. E ler MSN sendo do Paraná, do Norte, acho que também tem (pra mim teve) um sabor até então desconhecido. Emocionado, chorei em várias cenas.
Por aqueles dias, em férias, eu estaria empreendendo uma viagem ao Sul e fui tomado por uma súbita coragem de rever a cidade onde nasci, à qual não ia há 20 anos e da qual saí adolescente, praticamente fugido (não, não cometi nenhum crime, não é bem por isso). Nunca mais tinha tido coragem de enfrentá-la, mas, na volta dessa viagem, decidi: entrei em suas ruas, revisitei os mesmos ares que o menino tinha sentido. Numa passagem rápida e ainda assustada, tudo estava lá. A cara das coisas era outra, a cidade desfigurada, mas o mapa das ruas, algumas casas, o ar, a escola, tudo ainda existia na vida real. Tudo diferente, mas estranhamente, ao mesmo tempo, igual, parado no tempo... o tempo congelado. E eu, nele, anestesiado...
Revisitar anonimamente minha cidade (olha como já estou falando dela!) me fez um bem que eu não sei descrever. E isso foi por ter lido seu Chá. Minha alma renasceu. Foi como se, finalmente, eu tivesse ganho permissão para andar livre e destemidamente pelas ruas da minha infância, coisa que eu nunca tinha me permitido antes... agora via bem... (Não, não é Peabiru). Claro, na volta ao batente, continuei (ainda não terminei) a leitura de seus livros. Um enorme prazer. Nem preciso dizer o quanto gostei de Chove sobre minha infância... Se o Sr. contribuiu para que muitos passassem a escrever (ouvi, ao acaso, testemunho de um ex-aluno da UEPG de que também é ótimo professor), no meu caso, criou um novo leitor. Desde então, ganhei prazer pela leitura. E, isso, deverei sempre ao seu primeiro livro (que li; veja só, nem mesmo Machado conseguiu essa façanha de transformar um homem pouco afeto aos livros num leitor habitual). Aproveitarei melhor os anos que ainda restam. E pretendo voltar ainda outras vezes às ruas da minha infância, continuar esse resgate não sei nem de quê, nem de quem...
Muito obrigado!